Broto

Postado em Impressões em 25 agosto 2011 por Marla!
Vejo os passos convictos enquanto paro e me pergunto: essa certeza, de onde vem? admiro e quase invejo a obstinação de quem segue, simplesmente segue. Há os pés, sem dúvida. Há o chão, indiscutível realidade. Mas o movimento... ah, o movimento... não se dá por pouco. Custa muito ou quase nada, ou por dever ou desejo que arrasta e faz quase voar. Mas aqui resta muito pouco de senso de dever ou desejo, resta o suficiente para manter de pé - por enquanto. 


Balanço na rede embalada pelos braços que me contêm, me aninho, meu ser escapa. Paro. Faço provas que me provam estar cada vez mais distante do que me acende. Provar a quem? Paro. Sigo aguando as plantas. Elas sabem crescer, procuram o obscuro, afundam suas raízes e também peregrinam rumo ao sol. Seguem as direções opostas do mesmo caminho e não se contradizem em ser. Hoje ouvi o barulho da água escorrendo por dentro da terra e achei tão bonito. Sigo aguando as plantas, ouço também meus barulhos e procuro aprender a seguir e fincar raízes.

Prerrogativa

Postado em Impressões em 28 julho 2011 por Marla!

Simplease

Caso queira,

poupe-se de muito anseio,

que sou só isso.

Ofereço, malmente,

chão de tábua corrida

poltrona fofa,

café quente,

lâmpada e estante

mesa e jarro de flor

sacola de feira

vestido e sandália

luz de sol

perfume de mato

pele de lobo em moça

que acontece de saber

morder e assoprar.

E, de tudo, somente prometo:

metáfora não faltará.

Mas se vier,  esconda as garras,

que este coração não é lima de amolar unha de gato.

De volta, do nada, de novo

Postado em Impressões em 7 julho 2011 por Marla!

Som que preenche espaços conversando com o corpo em articulações quase completamente caladas. Quase-frio. Os gatos derrubaram latas correndo apavorados ao pressentirem: ela vem. Não é possível deixar de ver o céu vermelho e preto, a sucursal do inferno de papelão e guache das peças da escola. Céu de um nefasto glacê. Havia movimento, um corpo articulado balançava, acho que era o meu. Havia o som e havia também pensamento: cabos, pássaros e um imenso vazio. Acho que eu era o vazio, os cabos e os pássaros me habitavam. Um vazio balançava achando que era eu. Meus pássaros e cabos se chamavam de pensamento. Devia haver pessoas, devia haver outros vazios balançando, e seus pássaros, ou o que quer que fosse pousado sobre seus cabos. Devia haver outros pensamentos, mas eu poderia apenas supor. Um diabo ingênuo passa de braço dado a um demônio menor, em quem enrola o próprio rabo numa tração dolorida. Ouço os gatos ao longe, imaginando seu rastro de pavor. Aquela que move estrelas e exala um mistério de cada vez vem. Meus pássaros avoaçam e descubro que no vazio há vento. Frio. Sensação de dedos me atacando a cintura, problema meu se tenho a memória do mundo. Num canto do teto uma teia de aranha desmente o cenário envelhecendo o inferno, envelhecendo a lembrança. Os dedos já atacam outras costelas, têm já outras histórias e quem sabe até não sentem o que tocam? “Tocando Metallica e você nem tá aqui”. Afinal, o que sabem os gatos?

 

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