Carlos
Tudo o que eu queria, Carlos, era ver-te sob os meus pés. Não é que eu não te ame. Meu amor é uma centelha breve no fogaréu de sensações que tenho a respeito de ti. Não, meu amor é a chama central, constante, a despeito de toda a auréola que flameja intermitente: às vezes ódio, outras, frustração. Queria poder cortar-te ao meio, sabes, Carlos? Num golpe de faca, dessas amoladíssimas, numa curiosidade cesariana… fender-te-ia em dois, as metades sangrentas tremulando vermelhas e suculentas, a desfazer-se em águas e gosmas. Depois, dançaria, num ritual grotesco de rodopiar em volta de ti ao som de tuas próprias melodias, um dançar sacrossanto, sacramentado pela minha alegria. Ah, Carlos, dou-te um beijo. Ponho-te a dormir enquanto afago teus cabelos… nem imaginas! Nem imaginas que cousas alegres penso a afagar-te o peito, lembrando punhais diversos, lâminas belas, brilhantíssimas, cabos cravados de pedras coloridas, bordados a ouro. Mas dorme, meu bem. Dorme em paz, que esse fogo centelha ainda, dorme.