To watch
Deu meio-dia. Viu, do alto, pessoas de uniforme evacuando os prédios comerciais – clínicas, escritórios, o mundo almoçava. Sabia, com a certeza de quem já vira inúmeras vezes, que por volta de uma e meia começariam a retornar.
Os carros constituíam um segmento à parte no seu ofício de observação. Já vira desde os mais antigos aos últimos modelos – acompanhava, mesmo, a agenda de alguns, diários, levando ao trabalho ou os filhos ao colégio. Sabia dos seus horários e notava quando se atrasavam.
Uma vez ou outra, ao longo do dia, dedicavam-se a encará-lo. As expressões eram das mais diversas, mas nunca duravam, era sempre uma encarada rápida, concentrada. Logo se iam.
Ele era solitário, e o trabalho, cansativo. O que havia de melhor era a oportunidade de observar. Conhecia e inspecionava cada metro daquele trecho da Avenida Getúlio Vargas, com suas duas mãos e canteiro central de árvores centenárias. Não era tão sozinho, afinal. De fato, quando todo mundo ia, as árvores eram suas companheiras.
Com tanto tempo de ofício, tanto tempo a observar a avenida, tinha algumas histórias para contar. Poucos acidentes. O que mudava mais era o caráter das construções. Já vira um prédio começar supermercado, ser abandonado, virar igreja, e abrigar um supermercado concorrente. Os escritórios viravam consultórios, e vice-versa. Nada durava muito. Nem o dia.
A tarde trazia uma certa melancolia. Anunciava a noite com um muxoxo. Nova debandada nos prédios. Agora só voltariam pela manhã. O movimento já diminuía, mais tarde os carros passariam mais velozes, mais raros, mais barulhentos, ou era o silêncio que dava o contraste?
Noite. As árvores balançavam, o silêncio, ora era espantado pelos grilos, ora varrido pelo vento. Ficou por ali, abandonado, porque não sabia ir. Contemplava do alto da torre o balançar cadente dos galhos, num ir e vir que, por mais monótono que fosse, não lhe trazia sono, nem remediava a compridez da noite. Arrastava-se (o tempo) com uma lentidão que impressionava. Imaginava que tipo de criatura seria o tempo, e aonde iria ele toda noite, só chegando de manhã. Pensava, em sua cabeça de relógio, que a noite era a ida do tempo a algum lugar, e que enquanto ele passeava fazia escuro. Só pensava, não entendia por quê.
9 Março 2008 às 4:08 am
ultimamente tenho desejado que a noite seja minha ida a algum lugar… onde eu possa ver o brilho de um olhar… olho no relógio: meia noite e a noite apenas começa, entre o computador e um livro, tentando encadear palavras pra terminar a monografia… de tempos em tempos, vou na varanda… estrelas, a luz de um avião que vem pousar, as chamas do gás queimado na petrobrás na direção da praia, um vento que vem de lá… volto, luto contra o sono, contra os olhos que querem se fechar… perco minha manhã dormindo e não consigo recuperar.