Pequena nota autobiográfica #2 e Minha ‘Armchair’

Já dizia o poeta Kennedy, de si mesmo, em sua “Armchair”, da inércia em que nos prendemos num agoniante abraço. Disse-me o mesmo, usando suas habilidades de psicólogo, de mim.
A inércia é o que rege os dias em que, embalada por desesperança, amanheço. Lembra-me aquela poesia, Amanheço. Sei que nem se trata de “poesia”, posto que poema, nem de Amanheço, que não é seu título. O caso é que nunca fui empreendedora, sendo que apesar das idéias (para não passar por ingênua, pois acho tudo ruim, mesmo o que acho digno e maravilhoso), não tenho peito para bancar iniciativas. Padeço.

— fim da pequena nota autobiográfica #2  — (ou não)

Minha ‘Armchair’

Eu estava em uma caixa de vidro quando passou pelas minhas vistas um homem tendo, em lugar da cabeça, a palavra não. Percebi que ele era a palavra não, e enquanto ele existisse ali no mesmo espaço eu jamais seria notável, eu sempre seria pequena. O homem que era a palavra não passou por mim resmungando e bufando, e eu cheguei à conclusão de que precisava escrever logo sobre ele, senão ele anularia a minha capacidade criativa inundando a minha alma de tristeza. Eu andava já com a alma inunda, imunda de tristezas, seria o caso de me afogar. Encostei no vidro que nos separava e gritei meia dúzia de palavras grosseiras para ele. Ele me olhou e já ia estender o braço pra fazer com o dedo da mão direita um sinal que me calaria, um não, e eu logo lhe virei as costas contente da descoberta que eu havia feito de que bastava lhe ignorar para aquele não não fazer mais sentido. Senti-me um pouco grande. Ensimesmei-me, ignorando-o, e passei a tratar mentalmente da discussão das razões de porque eu estava ali numa caixa de vidro, e logo me evadi (me invadi) pensando que enquanto houvesse boa filosofia portátil a profanar meus ouvidos, vulgo música, eu seria feliz, daquela felicidade proporcionada pela ignorância que se servir de um referencial de mundo que nos apraza proporciona. Ora, o que isso faz é substituir, em minha autocrítica, o modelo tradicional andande suado triste cansado nas ruas por um modelo revolucionário façavocêmesmoaartepodemudaromundo, me comparando com o qual eu sou uma criatura boa, merecedora de ser feliz.
Pensava nisso e considerava que seria bom escrever, enquanto observava que o Word não era a melhor ferramenta para se utilizar na escrita, por ser assaz pretensiosa, e por falar em pretensão, ocorria-me no mesmo instante que eu não estaria gabaritada a escrever por não ter lido ainda Ulisses, tampouco Dom Quixote, o segundo por obrigação, respeito, tradição, juízo, o primeiro porque me ensinaria a transgredir de forma que eu me encontrasse em condições de parir material decente. Ocorreu-me, após, que à ocasião da escrita de Ulisses, Joyce também não havia lido ainda o Ulisses, posto que joguei toda a idéia para as quintanilhas e me pus a escrever o texto. Sem influência de Joyce, posso dizer.
Usava uma camisa sem mangas preta, com uma inscrição que, por falta de vista, não pude ler (era-me estranha a idéia de estar carregando no peito um dizer que me era desconhecido – não seria isso o inconsciente, uma verdade que a todo instante proclamamos, até para nós desconhecida?) e um sukini preto. Ah! mas é claro! eu havia acordado e entrei no chuveiro, a caixa de vidro era o box. Por que eu estava vestida?
Hum, desconfio sobre a identidade do homem. Acordo e são já nove horas, lembro-me dos insucessos que me reserva o dia, dos fracassos da semana, vacilo ao querer enfrentar o impossível mundo e me deito. Penso neste sonho. Estou vestida com a camisa e o sukini, lê-se: “No one cares about your blog”, presente comentado e justificado, recebido felizmente. Jogado em cima da mesa olho o Ulisses. Bastardo maldito. Viro-me e bufo.

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