Fitas
Quando arrumava os livros sobre a prateleira o peso de um deles deslocou a pilha adiante e a pequena garrafa que servia de contrapeso na ponta despencou e foi ser, de encontro ao chão, dezenas de pedaços. Soltei um grito que dizia “não”, e senti aquele prazer sádico de quando percebo que o mal é irremediável e só me resta contemplá-lo, inocentemente.
Elaborei a perda até que bem rápido, posto que a garrafa era um presente trazido de viagem por Pâmela, na época do colégio, de uma viagem em que ela vira Belchior e se lembrara de mim. Eu adorava a garrafa, não só porque era bonita, preenchida com areias coloridas que se dividiam em ondas, mas porque eu adorava Pâmela, e adorei o seu gesto. Pensei que o que importava era a nossa amizade, mais que a garrafa, e mais me valia manter essa amizade que um símbolo dela, e eu o tinha feito, encontrando-me com ela duas vezes na úlima viagem a Brumado, tendo-nos divertido e reatado os laços.
Estava já em outro cômodo assistindo uma série que baixara no computador, e escuto o estardalhaço de fitas VHS e DVDs caindo no chão. Pensei, “agora é demais”. Fui ver o estrago, que não houve, e me ocorreu, olhando o cenário, que o que desmoronava não era só a estante. Desmoronava, como a torre de fitas e livros, uma estrutura com bases pouco sólidas e colunas que não agüentavam o peso do que nelas se apoiava. A arrogância de uma prateleira, que se queria estante, era igual à arrogância da casa que se queria lar. Os detalhes soberbos que eram os títulos escolhidos e a quantidade de fitas eram como os closets de que não precisávamos e o belo acabamento do quarto minúsculo com pouca luz. Por fim, o conteúdo forçava as barreiras, como a minha vida forçava o continente que me ofereciam meus dois pais, de que eu ameaçava sair por não caber, nunca suavemente, mas, como as fitas, sob grande estardalhaço.
Uma compreensão sobre o que era a minha vida me banhou por um instante, e eu fiquei submersa nela, com grande medo, mas também alívio. Quando uma família falha, todos falham. Todos levarão a família fracassada consigo, não importa o quão longe consigam se estrepar sozinhos, depois da separação com grande estardalhaço.
Urgia (rugia) em mim a vontade de pesquisar nos recônditos do que eu ignorava, mas de alguma forma sentia, bases mais sólidas para reerguer a estrutura, nunca completamente nova, mas sim a partir do que sobrara da demolição. Sendo assim, eu haveria de preencher espaços entre um pilar e outro, entre o pai que me sobrasse e o que faltaria, haveria de subir níveis e altear as pilhas, seletivamente, pois sabia que quanto mais altas, maior a queda. Antecipei que esse seria um processo horroroso, mas o quis sem pressa. Procuro buscar dessa vez bases verdadeiras e não admitir pilares frágeis, falsos, inseguros, somente porque dou muita importância ao meu conteúdo.
Pretendo guardar as fitas, eu não vou insistir numa ordem falida. Eu não vou insistir numa aparência que esconde o real estado do que existe em prol de impressões baseadas em visões que jamais contemplaram a verdade.
De fundo, no fundo, uma mágoa que é mar. Minha casa é palafita.
23 Maio 2008 às 9:32 pm
adorei o texto! legal sua reflexão a respeito da sua família… infelizmente perdi a garrafinha de areia q vc me deu… durante uma viagem, ela sumiu da minha casa. já a que Bia me deu ainda tá aqui na minha mesa.
tenho muitas novidades pra contar, aparece aí!
já viu o novo blog de Bia??? http://beatrizsb.blogspot.com/
beijos,
3 Junho 2008 às 6:40 pm
Bushiness says : I absolutely agree with this !
5 Junho 2008 às 2:09 pm
maravilhosa
19 Junho 2008 às 7:59 am
Somehow i missed the point. Probably lost in translation
Anyway … nice blog to visit.
cheers, Buckskins.
23 Julho 2008 às 2:39 pm
“Quando uma família falha, todos falham. Todos levarão a família fracassada consigo, não importa o quão longe consigam se estrepar sozinhos, depois da separação com grande estardalhaço. “
Marla,
Lindo o texto! A (des) e importancia dos laços. As correntes e ligas que formam.
Lembrei da primeira frase de Tolstói em “Ana Karenina” – “Todas as familias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.”
24 Julho 2008 às 10:30 pm
A muitos você representa. É espetacular no entanto observar como cada consciência se projeta diante de questões particularmente e pessoalmente universais e atemporais. Como você bem diz, o processo pode ser horroroso, mas também não há pressa. Mas com certeza o caminho deverá ser de luz. Muito legal o seu blog.