Cada um

Tudo começou com uns quadrados que eu achei, no início, nem sabia onde, e depois lembrei terem vindo com uns pregadores que comprei num dia em que lavei muita roupa.

Os quadrados eram lindos, de papel craft, e deviam ser sobras de corte de caixas, calendários, ou qualquer coisa linda que se faça em papel craft. Qualquer coisa útil.

Os quadrados mantinham unidos os pregadores num retângulo útil, para serem embalados em uma fina camada, prática, de plástico transparente.

Guardei-os numa caixa, também de papel craft, onde ficaram por algum tempo. Um tempo pouco. Fiz planos de serem capa de alguma agenda, ou a tampa de uma caixa, talvez, ou o tema de um óleo sobre tela que faria, uma série, em que iria alternando a posição, sempre no retângulo perfeito, ou enquadraria numa moldura, como as gravuras que darei a Guilherme, na qual ficariam ainda mais lindos sob a chapa de vidro brilhante.

Assistia “Mensagem pra você” e ia brincando de rearranjar os quadrados quando, subitamente, percebi ter atingido o arranjo perfeito, a áurea composição. Tomei o cuidado de preservá-la.

Não queria perdê-la, então me pus a desenhá-la em página de diário, o que fiz com grande concentração, pois papa não quer pagar a pensão. Ia dando o horário, o que percebi, mas o que importa, quando eu tenho quadrados para retratar? Tirei uma foto, somente depois do trabalho pronto, em que expus o original junto ao retrato sobre a página. Quando fui ‘revelar’ no computador, veio a surpresa. Cadê o quadrado?

Procurei sobre a mesa do quarto, onde os concebera; procurei aqui. Somente o seu lugar e o alinhamento torto, um vestígio de deslocamento. Passaram-me como flashes as imagens de uma agenda, uma composição e toda uma série de telas a tratarem da ausência de um quadrado. Era até que triste, mas havia argumento. Olhando a foto, me parecia que saíra de sob uma manchete de jornal.

É preciso explicitar que o poema, que não participou de nada, saíra antes mesmo de notada a ausência do quadrado, estando ali como testemunha.

Hoje o que há
de mais importante nessa flor
é o espinho.

Se ainda se vê
o vestido escarlate
é pela sua natureza,

pois, sendo rosa,
não saberia flore-ser
de outra forma.

É, para ela,
no entanto,
uniforme de guerra.

Cada um combate
com as armas que tem.

Como iria me sair com os quadrados restantes? É imperioso ressaltar que não sou mulher de chorar por um quadrado quando ainda me restam cinco, longe de mim dar mais importância ao que não tenho. Se Úrsula se acabasse com a partida de cada Arcadio, não viveria para ver morrerem ou outros.

Haverei de me sair bem, embora duvide, e ache que vá partir numa desesperada busca. Pode ser que o encontre, mas seremos os mesmos? e como irei me arranjar com a ausência de um quadrado? ele não quer pagar a pensão. Um quadrado a mais, um a menos no orçamento, sempre convivi com a ausência maior de um continente-moldura, quantos quadrados houvesse.

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