Déjà vu
Calor. Eu sabia que estava com febre porque só eu usava cachecol enquanto toda a gente tinha os braços nus. Tudo se cobriu de vapor. Ainda estava no banho, mas não sabia exatamente onde. Devia estar em casa, devido à ausência de barro em meus pés. “E esse coração?” “Parece uma concha.” “Mas ainda é um coração.” “É um coração que parece uma concha.” Ombro. Cheiro de roupa nova. Acordou, me olhou e contou um sonho. Bom dia. “Hoje eu pedi pra algumas pessoas me contarem seus sonhos e ninguém se lembrou. Aí eu nem te pedi e você me contou”. Cabeças de boneca te olham da estante, enquanto eu observo uma fonte em estilo oriental - ”Sempre boa noite?” Cerveja. Azulejo. Aquecedor. Mar-e-leme. Eu tinha olhos que indagavam, sabia que os olhos eram meus, mas não me reconheci no espelho embaçado. Meu cabelo conferia uma moldura engraçada à cara vermelha. Procurei o elástico no pulso, mas não estava lá. Procura-se. Sossego. Cheiro do cabelo molhado. Prego no teu pé. Lego. De todas as luzes que cruzaram o céu, prefiro a constelação de pintinhas. “Quer provar?” Beijo do nada no meio da chuva.* Meus neurônios lidam com o resíduo de afeto da noite anterior. Fica o afeto das idéias que vou sobrepondo e misturando sem nenhum respeito. ”Será que tem sucuri?” Barro. Grama. Abraço sob céu riscado por pentagramas elétricos, em cujas linhas, qual pássaros, repousam as notas de Creep. ”Detesto esses fios, gosto de ver o céu limpo no campo.” “Me lembra Lain.” Jesus chega trazendo um baseado: “Oi, pessoas bonitas.” Encaro o céu de concreto. Nenhum sinal de L.ooze. Alcancei o antialérgico, a dipirona, o xarope, e removi as cobertas e o suor da minha testa, ainda delirante, atraiçoada pela memória. *Contraindica-se, por seus efeitos alucinógenos a longo prazo e risco de adicção emocional.
15 setembro 2010 às 2:13 pm
Obrigada pelo belo elogio!! Quando eu comecei o blog eu era meio pingo de gente sim, hj acho que já virei gente..hehehe!
24 outubro 2010 às 9:09 pm
Achei um tanto muito bom e, se eu fosse você, certamente publicaria. – just in case, uma dica: http://www.ileel.ufu.br/amargem, até 31/10 com chamada aberta, prorrogada.
7 julho 2011 às 4:19 am
[...] Ter um Déjà vu [...]