De volta, do nada, de novo
Som que preenche espaços conversando com o corpo em articulações quase completamente caladas. Quase-frio. Os gatos derrubaram latas correndo apavorados ao pressentirem: ela vem. Não é possível deixar de ver o céu vermelho e preto, a sucursal do inferno de papelão e guache das peças da escola. Céu de um nefasto glacê. Havia movimento, um corpo articulado balançava, acho que era o meu. Havia o som e havia também pensamento: cabos, pássaros e um imenso vazio. Acho que eu era o vazio, os cabos e os pássaros me habitavam. Um vazio balançava achando que era eu. Meus pássaros e cabos se chamavam de pensamento. Devia haver pessoas, devia haver outros vazios balançando, e seus pássaros, ou o que quer que fosse pousado sobre seus cabos. Devia haver outros pensamentos, mas eu poderia apenas supor. Um diabo ingênuo passa de braço dado a um demônio menor, em quem enrola o próprio rabo numa tração dolorida. Ouço os gatos ao longe, imaginando seu rastro de pavor. Aquela que move estrelas e exala um mistério de cada vez vem. Meus pássaros avoaçam e descubro que no vazio há vento. Frio. Sensação de dedos me atacando a cintura, problema meu se tenho a memória do mundo. Num canto do teto uma teia de aranha desmente o cenário envelhecendo o inferno, envelhecendo a lembrança. Os dedos já atacam outras costelas, têm já outras histórias e quem sabe até não sentem o que tocam? “Tocando Metallica e você nem tá aqui”. Afinal, o que sabem os gatos?