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Os frutos e o tempo

Postado em Crônica, Impressões em 29 Agosto 2008 por anamarla

O tempo incidia sobre a pele e abria-lhe pequenas frestas, escaras de sol, como se de tão seca, de tão pronta, fosse rachar a superfície e nascer alguma coisa de dentro. A pele adquiriu uma transparência pela qual se viam veinhas azuis nas orelhas que sempre crescem. Era tranquilo e sereno, circunspecto, mas nem um pouco amargo. Parecia mesmo uma fruta, aquele homem octagenário, magro, cuja pele mostrava sardas pardas e pêlos pálidos. Imaginei quanto tempo ainda viveria. Um ano? dois? dez? cinco? e se ele morresse hoje, eu poderia estar olhando para um homem que andava de ônibus pela última vez. Era, talvez, seu último passeio, e ele exibia um olhar de quem sabia, não temia e esperava.

Devíamos durar mais. Um homem é um ser tao precioso! poderíamos viver mais um pouco. Mas quanto, ainda, poderíamos viver, depois que esse tempo passasse e ainda olhássemos para um homem que termina e pensássemos: “poderíamos durar um pouco mais.”?

Qualquer tempo não seria suficiente para uma vida, qualquer tempo menos que todo o tempo.

Eu vi uma mulher, essa, sim, tão séria; tinha os olhos bonitos, como teria vivido? como teria gastado o tempo? Vi uma mulher de cabelos curtos com a espontaneidade de uma criança. Parecia uma menina com seus sorrisos. Era, talvez, mais jovem do que eu, tendo o triplo da minha idade.

Vivo numa relação estranha com o tempo, sempre antecipando, querendo ser da outra geração (anterior), tendo saudade. Às vezes tenho saudade de um tempo, uma década que nem vi (a tempo). Vivo achando que chegará o tempo em que serei feliz, e sei exatamente as condições que almejo, mas de que agora não disponho. Cobro do tempo futuro a mesma insônia de minha mãe, espero receber dele a mesma lerdeza no trato do meu corpo como a que ele lhe dá.

            A rádio alerta para o perigo do sol, dos eczemas, do foto-envelhecimento: destrói as glândulas sudoríparas e sebáceas, deixa a pele frágil e fina; enfraquecem-se os vasos. Gente também solta poeira, insígnia e segundo estado de tudo que é velho, ceratose solar. O sol avisa que é tempo de des-frute, anunciando a todo momento a finitude.

Vocês já tiveram alguém para lhes dizer que usem o filtro. Eu faço um pedido: por favor, aproveitem a vida.