Viagem

Posted in Impressões on 10 outubro 2013 by Marla!

 

Revisitando a própria história é possível saber onde se está. Se há dúvida, sentimento de não pertencimento, convém lançar um olhar ao passado: à aparência que mudou, aos amigos que se tinha (os valores do grupo, os modelos do admirável, o código de conduta), aos sonhos que ocupavam os pensamentos à noite. Embarco neste veículo de um deslizar suave e vou passeando pelas minhas épocas antigas, não exatamente por ordem cronológica. Chego a sentir o cheiro dos lugares. Chego a ouvir as vozes das pessoas de então, com seus dizeres costumeiros. Chego a me sentir quem eu era, e me surpreendem as inquietações que tinha – umas já esquecidas pela evolução dos anos, outras verdadeiramente as mesmas, ornadas com as tintas do presente.

 

Olho para o agora com os olhos de outrora. Como eu me vejo através do olhar de quem eu era?  Sou alguém admirável, reprovável, um a mais? Hoje eu me vi com os olhos de uma época em que (pensava) podia tudo (e por isso podia). Não conto em que posição estou – isso é deveras íntimo – como pessoa para quem eu era, mas afirmo: é perturbador. Faço a proposta: ouse voltar à época em que tinha certeza de tudo (qual será?), relembre os sonhos e como julgava as pessoas e olhe para seu eu educado, formado, com seus novos papéis. O que você vê? Preferia corresponder à imagem que desejava para si, ou a rejeita, pois já se tornou tão diferente que os critérios são outros?

 

O que abandonou e era parte preciosa de si mesmo? o que tinha tempo de cultivar e deixou esquecido por causa das circunstâncias? que sabores não sente mais? de que lugar tem saudade? do que sente falta em si mesmo, nas suas relações, no balanço dos dias? Consegue responder a essas perguntas? a memória do que se era foi muito esvanecida?

 

É claro que o passado não é um oásis depositório dos aspectos positivos da vida, como o pode deturpar o tom nostálgico. O que já alcançamos de “paz interna” e segurança (conceitos que me são caros hoje) se deve ao passar do tempo e às experiências que vivemos ao longo dele. O passado, o presente, meu veículo de deslizar suave, são todos processo. Sou em processo.

 

É bem possível que esse texto só faça sentido às pessoas que caminharam um pedaço mais ou menos do tamanho que eu caminhei na vida. Não sei como é para os mais velhos, que já viram seus eus divergirem tantas vezes, e para os mais novos certamente ainda não é possível viajar muito com o bilhete que adquiriram.

 

Não sei até que ponto é sensato (sensatez tinha grande valor?) ou útil (e a utilidade de algo era pautada em quê?) medir a si mesmo com o olhar de uma época passada, em que, provavelmente, todo o contexto no qual estávamos inseridos – e nos formava – era também diferente. Aliás, éramos diferentes justamente por isso.

 

Soa covarde julgar a pessoa que sou agora através da distância segura de um passado a que já não posso voltar e dar também meus pitacos, virar o volante com a mão da experiência. Soa ingênuo avaliar as coisas de maior maturidade com a medida curta da juventude, e desconfio por quê. No entanto, me permito. Permito-me considerar isto mesmo: o potencial do que podemos ser é intensamente modificado pelas circunstâncias. Até demais. De tudo o que já fomos, de tudo o que podemos ser, quem dita a direção do movimento? Quanto (do que fomos, do que seríamos) ainda gostaríamos de ser, mas os aspectos exteriores a nós já não “permitem” mais? quando e quanto houve o rapto da espontaneidade, da criatividade, do original na nossa forma de ser no mundo, da autenticidade natural de quando não tínhamos de assumir tantos papéis e agir como esperado? Gostaríamos de empreender esse resgate – sabemos o que resgatar? Conhecemos a essência do que somos, estamos “fortes e atentos”?

Retorno ao ponto de partida, embasbacada na minha cadeira giratória, outro veículo de deslizar suave. Fica uma lembrança quente que cultivo como um segredo e a sensação de que posso estar me adaptando demais.

 

Todo poeta é um impostor. Se digita, mente.

Posted in Impressões with tags , , on 12 julho 2013 by Marla!

Todo poeta é um impostor. Se digita, mente. Se escreve, mente. Não há nada de puro na natureza dos poetas. Falam do que não sabem sentir com palavras que sequer descrevem de forma exata esse sentimento imperfeito. Os poetas são inúteis. Não se bastam a si; quando ficam doentes, antes de escreverem sobre o que não sabem que têm, correm para o médico. Os poetas não sabem nem viver nem morrer, misturam sentimento com imaginação, são extremistas da boca para fora e sorriem para pessoas de que não gostam (como todo mundo), ficam com preguiça de fazer almoço (como todo mundo), e vez ou outra usam a mesma meia duas vezes (como todo mundo). Os poetas são menos honestos que a gente, pois insinuam que existe um nível mais profundo do existir. Não existe, não. É tudo esse túnel circular em que nos prendemos, por onde vamos a velocidades variadas nos extrepando contra as paredes e nos chocando uns contra os outros, gozando da circunstância de estar ali e viver encontros, ainda que dolorosos, ainda que dilacerantes, tudo ao mesmo tempo.

Broto

Posted in Impressões on 25 agosto 2011 by Marla!
Vejo os passos convictos enquanto paro e me pergunto: essa certeza, de onde vem? admiro e quase invejo a obstinação de quem segue, simplesmente segue. Há os pés, sem dúvida. Há o chão, indiscutível realidade. Mas o movimento... ah, o movimento... não se dá por pouco. Custa muito ou quase nada, ou por dever ou desejo que arrasta e faz quase voar. Mas aqui resta muito pouco de senso de dever ou desejo, resta o suficiente para manter de pé - por enquanto. 


Balanço na rede embalada pelos braços que me contêm, me aninho, meu ser escapa. Paro. Faço provas que me provam estar cada vez mais distante do que me acende. Provar a quem? Paro. Sigo aguando as plantas. Elas sabem crescer, procuram o obscuro, afundam suas raízes e também peregrinam rumo ao sol. Seguem as direções opostas do mesmo caminho e não se contradizem em ser. Hoje ouvi o barulho da água escorrendo por dentro da terra e achei tão bonito. Sigo aguando as plantas, ouço também meus barulhos e procuro aprender a seguir e fincar raízes.

Prerrogativa

Posted in Impressões on 28 julho 2011 by Marla!

Simplease

Caso queira,

poupe-se de muito anseio,

que sou só isso.

Ofereço, malmente,

chão de tábua corrida

poltrona fofa,

café quente,

lâmpada e estante

mesa e jarro de flor

sacola de feira

vestido e sandália

luz de sol

perfume de mato

pele de lobo em moça

que acontece de saber

morder e assoprar.

E, de tudo, somente prometo:

metáfora não faltará.

Mas se vier,  esconda as garras,

que este coração não é lima de amolar unha de gato.

De volta, do nada, de novo

Posted in Impressões on 7 julho 2011 by Marla!

Som que preenche espaços conversando com o corpo em articulações quase completamente caladas. Quase-frio. Os gatos derrubaram latas correndo apavorados ao pressentirem: ela vem. Não é possível deixar de ver o céu vermelho e preto, a sucursal do inferno de papelão e guache das peças da escola. Céu de um nefasto glacê. Havia movimento, um corpo articulado balançava, acho que era o meu. Havia o som e havia também pensamento: cabos, pássaros e um imenso vazio. Acho que eu era o vazio, os cabos e os pássaros me habitavam. Um vazio balançava achando que era eu. Meus pássaros e cabos se chamavam de pensamento. Devia haver pessoas, devia haver outros vazios balançando, e seus pássaros, ou o que quer que fosse pousado sobre seus cabos. Devia haver outros pensamentos, mas eu poderia apenas supor. Um diabo ingênuo passa de braço dado a um demônio menor, em quem enrola o próprio rabo numa tração dolorida. Ouço os gatos ao longe, imaginando seu rastro de pavor. Aquela que move estrelas e exala um mistério de cada vez vem. Meus pássaros avoaçam e descubro que no vazio há vento. Frio. Sensação de dedos me atacando a cintura, problema meu se tenho a memória do mundo. Num canto do teto uma teia de aranha desmente o cenário envelhecendo o inferno, envelhecendo a lembrança. Os dedos já atacam outras costelas, têm já outras histórias e quem sabe até não sentem o que tocam? “Tocando Metallica e você nem tá aqui”. Afinal, o que sabem os gatos?

 

Cria dor, ri e atura

Posted in Impressões on 12 maio 2011 by Marla!

A página em branco exercia um magnetismo indescritível sobre minhas idéias e sentimentos. Sentiam-se atraídos por ela a paixão mal correspondida que lancetava meu peito, a cena de formigas, folhas e grama em quadro tricolor, a odisséia particular de evitar um par de olhos desde o encontro inesperado ao ar livre até a conversa pé-de-ouvido sob céu vermelho de boate. Cada idéia se projetava na página ensaiando seus contornos, querendo ser eleita. Amostravam-se ora em prosa, ora em verso, e eu as demovi a todas.

A página passiva era o mundo em branco aguardando a vontade do criador. Mas esse se tratava de um criador perplexo, inseguro e pouco à vontade. Era incompetente. Amava muito mais o mundo vazio.

Era para ser poesia

Posted in Impressões on 7 maio 2011 by Marla!

Ela esperava ser notada. Não que desejasse a fama, longe disso. Desejava receber atenção de alguém em particular, e sabia exatamente de quem, embora ainda não tivessem se encontrado. Ela sabia de imaginar, ao longo de muitas noites em que, parecendo um arremedo de donzela em tempos em que já não havia donzelas, debruçou-se e esperou.

Esperou dançando em boate, assistindo a shows, bebendo em bares, vendo filmes, lendo ficção, conversando com parentes, comendo churrasco. E foi ficando experiente de espera e de saber quem esperava, apesar de não ter nunca visto. Ficou conhecendo quase que inteiramente o próprio desejo: só não lhe conhecia a cara – assim, a cada vez que pensava ter encontrado, não era. E não foi nunca.

O desejo permanecia queimando. E continuavam também os enganos. A cada vez, pensava que era, mas escapavam detalhes. Com a convivência, iam surgindo características que seu desejo não tinha. E iam faltando outras… e ela se afastava, decepcionada outra vez.

Foi assim que deixou de rodopiar algumas danças, ter inúmeras conversas, aprender, criar filhos, passear de braço dado sobre rua de pedra. E também irritar-se, e decepcionar-se mais de uma vez pelo mesmo motivo, até aprender a ceder.

“Permanecer fiel ao próprio desejo é o que se pode fazer de mais autêntico por si mesmo”, foi o que seguiu a vida toda… e o esperou sempre.

Tenho notado que os textos tem refletido cada vez menos preocupações literárias e cada vez mais reflexões que quero compartilhar.  A idéia presente aqui, por exemplo, é algo que me ocorreu e não sei se estou contra ou a favor.  O título é metalinguístico.

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